Em quase toda reunião existe um momento em que alguém ainda está falando e a resposta do outro já está pronta. Vê-se no corpo, que se inclina para a frente, e na respiração, que se prepara. A partir desse instante, o que está sendo dito deixou de ser ouvido.
Chamamos isso de conversa por hábito. Seria mais exato falar em dois monólogos educados. Cada um aguarda a sua vez, e ninguém sai da sala sabendo algo que não sabia ao entrar.
Escutar pede uma renúncia pequena e difícil, que é a de não saber ainda o que se vai responder. Quem escuta aceita ficar alguns segundos sem posição, e esse intervalo é desconfortável para quem aprendeu que competência é ter resposta rápida.
Interpretação apressada é a forma mais elegante de interromper.
Na clínica, a escuta é o próprio trabalho. Nas empresas, ela costuma ser tratada como gentileza, coisa para quando sobra tempo. O resultado é conhecido. Problemas que alguém tentou relatar três vezes só chegam à direção quando viram reclamação de cliente, processo ou carta de demissão.
Há um sinal prático de que a escuta aconteceu. A pessoa que falou ouve de volta o que disse, com outras palavras, e confirma. Sem essa confirmação, o que houve foi interpretação.
Também interrompo, e é por isso que escrevo sobre o assunto com cuidado. O que se pode treinar é a rapidez em perceber e a disposição de devolver a palavra. Defender a escuta é simples. Praticá-la custa, a cada conversa, a vontade de ter razão antes da hora.
Valdimar Souza

